APRESENTAÇÃO
Para uma crítica da “Razão Africanológica”
ou
Da “SOCIEDADE AFRICANOLÓGICA DE LÍNGUA PORTUGUESA” (SALP)
à “AFRICANOLOGIA - REVISTA LUSOFONA DE ESTUDOS AFRICANOS”. 1
Depois da legítima, ainda que por vezes mal ou desoportunamente explicitada, contestação dos “Africanismos” e “Africanistas” (e respectiva pléiade de “Centros e Institutos Africanos” ou organismos equivalentes...) como não sendo mais que o prolongamento e a preparação ou a cobertura ideológica
do colonialismo cultural, económico e político, por um lado, e , por outro lado, depois da derrocada das mais ou menos actuantes instituições da política cultural ultramarina do sistema colonial português (que, no seu arcaismo e ultrismo, teria grandemente dispensado tal recurso, para além da fabricação de certos mitos
do género “luso-tropicalismo”, “não-racismo”, “lusitanidade pluricontinental e plurinacional”, “missão civilizadora”, “dilatação da fé e do império”, “imperialismo anti-económico” e quejandos ...), será ainda desejável e pensável uma qualquer “ciência da África” ou “Africanologia” que não seja a imitação retardada dos “Africanismos de antanho e de alhures” ou o instrumento mais ou menos (in)conscientemente geostratégico dos “africanismos do novo nome”, que continuariam a ser, embora com roupagens diversas, a mesma realidade da mesma “civilização e cultura”, numa perspectiva etnocentrico-etnocidária
e da mesma “economia e política”, numa perspectiva de dominação-exploração?...
Por outras palavras: uma “Ciência da África” ou “Africanologia” “não-colonialista” e “além-culturalista” será, nos actuais países de língua oficial portuguesa, necessária, possível, legítima, pertinente? E como, em que sentidos e sob que condições poderá e deverá uma tal “Africanologia” ser considerada uma “Ciência Social” também das Sociedades Africanas das outras Sociedades Lusófonas?
Os “Movimentos de Libertação” das ex-colónias portuguesas, que tornaram viável, embora não inevitável, uma “outra África” e o “25 de Abril de 1974”, que tornou viável, embora também não inevitável, um “outro Portugal”, tornaram igualmente viável, embora também aqui não inevitável, uma “outra Africanologia”, a qual, no âmbito que lhe é próprio, até poderia constituir algo de cientificamente emblemático e pioneiro.
Por exemplo, toda a “história africana de Portugal e do Brasil” e toda a “história portuguesa e brasileira
de África”, de que o resultado mais visível é a utilização de uma língua comum, ao mesmo tempo que naturais estímulos desta “Nova Africanologia”, dela receberiam aquela leitura realista e crítica que, além
do mais, permitiria a Portugueses Brasileiros e Africanos ultrapassar seculares traumatismos e “libertar” definitivamente e não apenas do ponto de vista “memorial”, “catártico” e “psicanalítico”, todas as suas potencialidades africanológicas E a Portugal, o essencial histórico processo em curso da sua
“Re-europeização” nunca deveria fazer-lhe esquecer que o mesmo só terá interesse e fará sentido, para si e para a Europa, na medida em que também incluir o igualmente essencial parâmetro
atlântico-africano-brasileiro, noutras palavras, o “parâmetro lusófono”.
Pelas razões e nas condições evocadas, aparece como necessária, possível, legítima, pertinente, uma “Africanologia Científica”, situada sem ser dogmática, redutora ou propangandística, e aberta a toda
a Realidade Africana (política, económica, etnológica, antropológica, sociológica, histórica, arqueológica, linguística, literária, filosófica, religiosa,...) sem ser meramente descritiva, explicativa, ou justificativa do “statu quo”; uma “Africanologia Científica” que seja, simultaneamente e sem nenhuma espécie
de etnocentrismo ou neocolonialismo, uma “Ciência Social” da Sociedade Portuguesa e demais Sociedades Lusófonas Contemporâneas.
Todas as palavras antes referidas, que serviram de introdução à Assembleia Constituinte da “Sociedade Africanológica de Língua Portuguesa” (SALP), poderiam servir agora, obviamente “ mutatis mutandis ”, “additis addendis” e “suppressis supprimendis” , de mote e de motor para esta nova “ AFRICANOLOGIA - REVISTA LUSOFONA DE ESTUDOS AFRICANOS ”. Paradoxalmente, por outras razões mas não raro com idênticos resultados, nesta era de toda a espécie de globalizações contraditórias, em que o continente africano se tornou o “continente esquecido”, o “continente inútil” e o “continente incómodo”, faz outra vez sentido e até cada vez mais sentido sobretudo se lhe dermos um outro sentido, a célebre questão com que David Livingstone, em 1857, iniciou o seu relatório , na Sociedade de Geografia de Londres:
“ Dão-me licença de chamar a Vossa atenção para a África?”
Não é outra a intenção nem outro o desafio científico da “REVISTA LUSÓFONA DE AFRICANOLOGIA”: contribuir para o aprofundamento e o alargamento da “crítica” e da “prática” da “Razão Africanológica Contemporânea”, predominante mas não exclusivamente no âmbito dos “Espaços Lusófonos”.
O Director da “Africanologia - Revista Lusófona de Estudos Africanos”
FERNANDO DOS SANTOS NEVES
Presidente da Sociedade Africanológica de Língua Portuguesa (SALP) e da Associação dos Cientistas Sociais do Espaço Lusófono (ACSEL), Reitor da Universidade Lusófona do Porto (ULP)
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1. A “SALP - Sociedade Africanológica de Língua Portuguesa” foi efectivamente decidida e votada durante a “Segunda Semana Sociológica”, no dia 28 de Abril de 1991, com escritura notarial a 18 de Junho do mesmo ano. Sobre a “SALP”- “Sociedade Africanológica de Língua Portuguesa”, publicou o Jornal “PUBLICO” de 19 de Junho de 1991 toda uma página com o sugestivo título: “ Africanologia, um novo nome para uma nova ciência ”.
A “ACSEL - Associação dos Cientistas Sociais do Espaço Lusófono” foi criada em 1994, especificamente para tornar efectivas as intenções pragmáticas da IV Semana Sociológica, que eram
“à luz da Razão Lusófona, enterrar as mitideologias, enfrentar as realidades e analisar
as potencialidades do Espaço Lusófono em todos os seus parâmetros (históricos, geográficos, culturais, económicos e políticos) na perspectiva interdisciplinar das Ciências Sociais, tornando sua a glosa
da célebre tese: até agora, já se fizeram todos os discursos possíveis sobre a Lusofonia; o que interessa, porém, é realizar o Espaço Lusófono!”.
Os Estatutos tanto da SALP como da ACSEL vêm publicados em anexo ao livro “O Lugar e o Papel
das Ciências Sociais e Humanas” , pp. 233 ss. (Edições Universitárias Lusófonas, 2ª edição revista
e aumentada, 2002).
